Da mesma forma que o massacre de poloneses em Katyn, atribuído de maneira aparentemente falsa à União Soviética, a fome na Ucrânia em 1932-1933 é de tal forma manipulada por “historiadores” anti-soviéticos que chegam a chamá-la de “holodomor”, uma grande fome supostamente deliberada para aterrorizar a população ucraniana. Ao que tudo indica, porém, o “holodomor” é apenas isso: manipulação de fatos para atribuir, com objetivos políticos, falsas causas para tal fome. O texto a seguir é a tradução de um e-mail do historiador J. Arch Getty, um dos melhores historiadores não-comunistas no tema da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Embora não se liberte de conceitos como “estalinismo”, sua pesquisa é séria e embasada criticamente nas fontes. Sempre vale a pena lê-lo.
Não sou um especialista na fome ucraniana, mas sou familiar com a pesquisa recente sobre esse assunto realizada por diversos acadêmicos, e penso bastante a respeito da profunda e abrangente pesquisa que Mark Tauger realizou por muitos anos.
Essa familiaridade me leva a acreditar que não há respostas simples para isso. Uma “fome causada pelo homem” não é o mesmo que uma fome deliberada ou “fome terrorista”. Uma fome causada originalmente por quebras de safra e agravada por políticas deficientes é “agravada pelo homem”, mas apenas parcialmente “causada pelo homem”. Por que nesse campo nós sempre insistimos no absoluto, especialmente o categórico, o binário e polêmico? Falso/verdadeiro. Bom/mal. Quebra de safra/causado pelo homem. Lembra-me a abordagem estalinista.
Muitas questões têm respostas ambíguas.
> 1 Por que as fronteiras da Ucrânia foram fechadas por autoridades soviéticas?
Não necessariamente para punir os ucranianos. Isso também foi feito para impedir que pessoas famintas fugissem para áreas não-famintas, pressionando seus exíguos estoques de alimentos, e portanto transformando um desastre regional em um desastre universal. Este foi também o motivo original para o sistema de passaporte interno, que foi adotado num primeiro momento para impedir o deslocamento de pessoas famintas e desesperadas e, com elas, o alastramento da fome.
> 2 Por que jornalistas estrangeiros, até mesmo apologistas de Stálin como Duranty, tiveram negado o acesso às áreas famintas?
Pela mesma razão pela qual jornalistas dos EUA não podem mais adentrar zonas de combate americanas (Guerra do Golfo, Afeganistão) desde o Vietnã. Nenhum regime anseia pela chance de más notícias se puderem controlar a situação de outra maneira.
> 3 Por que a ajuda de outros países foi recusada?
Obviamente, para impedir que os “imperialistas” tivessem uma chance de trombetear a falência do socialismo. Certamente a política triunfou sobre o humanismo. Além do mais, na crescente paranóia daqueles tempos (e baseado na experiência da Guerra Civil), o regime acreditava que espiões vinham junto da administração de ajuda humanitária.
> 4 Por que eu leio e ouço histórias de famílias que tentaram levar suprimentos de outras regiões para ajudar seus parentes no período e tiveram todos os alimentos confiscados quando eles tentavam adentrar as regiões da fome?
O regime acreditava, e penso que com razão, que especuladores estavam tentando levar vantagem no desastre comprando comida em áreas não-famintas (mas ainda assim com escassez alimentar), levando-a à Ucrânia e revendendo-a a um preço mais elevado. Em um estilo verdadeiramente bolchevique, não havia nuances na análise, deixando-se de distinguir entre famílias e especuladores, e todos eram barrados.
Como no ponto 1 acima, regimes enfrentando a fome tipicamente tentam conter o desastre geograficamente. Isso não é o mesmo que tentar punir as vítimas.
> 5 Se foi uma quebra de safra, por que o peso daquela quebra não foi compartilhado por toda a União Soviética?
Ele foi. Nenhuma região tinha muitos alimentos em 1932-1933. Os alimentos eram escassos e caros em todo lugar. Todos tinham fome.
Com as sugestões acima, eu não tento criar desculpas para os estalinistas. A conduta deles foi errática, incompetente e cruel, e milhões sofreram inimaginavelmente e morreram em decorrência. Mas é simples demais explicar tudo com uma declaração como “os bolcheviques eram simplesmente pessoas más”, mais adequada a crianças do que a acadêmicos.
Era mais complexo que isso. Apesar de a situação ter se agravado de algumas maneiras em conseqüência dos erros dos bolcheviques, as tentativas deles de conter a fome, uma vez iniciadas, não eram inteiramente estúpidas, nem eram gratuitamente cruéis. Os estalinistas, por sinal, em determinado momento cortaram a exportação de grãos e, por sinal, enviaram ajuda alimentar à Ucrânia e a outras áreas. Era um pouco tarde demais, mas não há evidência (exceto assertivas constantemente repetidas por alguns escritores) de que isso foi uma “fome terrorista” deliberadamente infligida.
Finalmente,
> Bastante acetadamente, negar o genocídio judeu traz o opróbio. Certamente negar a fome terrorista de 1932-1933 traz a mesma reação.
Esse é um posicionamento que eu pessoalmente considero grotesco, insultante e pelo menos raso. Ninguém está negando a fome ou a grande escala do sofrimento (como os negacionistas do holocausto fazem), menos ainda Tauger ou outros pesquisadores que dispenderam muito de suas carreiras tentando trazer à luz essa tragédia e nos dar uma análise factual dela. Assumidamente, o que ele e outros acadêmicos fazem é diferente do trabalho de jornalistas e polemistas que indiscriminadamente coletam histórias de horror e as amontoam entre afirmações repetitivas sobre o mal, juntando tudo isso e chamando de história.
Uma análise factual e cuidadosa do horror não o torna menos horrível.
J. Arch Getty
Professor de história, UCLA

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