A economia política marxista se explica a partir das relações de produção. Assim se dá não somente com o funcionamento progressista do capitalismo, como também com suas crises. No entanto, alguns daqueles que se dizem marxistas não compreendem isto e tentam explicar as crises, não como crises de superprodução, mas de subconsumo – elas aconteceriam devido à falta de “demanda efetiva”.
À primeira vista, superprodução e subconsumo parecem sinônimos, mas são termos que distinguem explicações completamente diversas das crises cíclicas do capitalismo. As crises não são o objeto principal destes artigos, mas a possibilidade teórica de que a insuficiência do consumo final seja a causa delas deve ser descartada, porque ela encerra também o oposto, ou seja, significa que o aumento desse consumo é que possibilita a expansão da produção.
Como ia dizendo, superprodução e subconsumo parecem sinônimos, mas denotam explicações completamente diferentes sobre as crises do capitalismo. Isto porque, enquanto superprodução é a impossibilidade súbita de se realizar a produção, subconsumo designa uma característica constante do capitalismo – a de que, num determinado momento, produz-se mais do que se consome, ou, dito de outro modo, consome-se menos do que se produz. A atual crise do capitalismo, originada da superprodução imobiliária nos Estados Unidos – impedida de se realizar pela quebra súbita do sistema hipotecário –, é uma prova disso. Nunca faltou lá demanda por imóveis, porém, em determinado momento, ninguém mais conseguiu comprá-los.
Fica claro, portanto, que, quando se fala em superprodução ou em subconsumo, fala-se em coisas diferentes. Não é a simples divergência teórica, porém, o motivo pelo qual as crises do capitalismo não são crises de subconsumo, mas de superprodução.
Como visto acima, a reprodução ampliada do capital implica um crescimento maior do setor da produção social que produz capital constante do que daquele que produz bens de consumo final. O mesmo ocorre com as mercadorias – a parte do valor que corresponde ao capital constante se torna, com o avanço da técnica, cada vez maior em relação àquelas que correspondem ao capital variável e à mais-valia. Desta forma, o consumo final ocupa um espaço sempre decrescente da economia. Há quem veja aí a impossibilidade de se realizar a produção a seu valor (ou seja, a impossibilidade de se obter mais-valia).11Para dar nome aos bois, digo logo que, desses autores, utilizo Jorge Miglioli, seguidor de Kalecki, e Paul Marlor Sweezy. Há abundantes críticas a seus ancestrais teóricos, inclusive neles mesmos, de modo que eu pouco acrescentaria ao debate se expandisse demais a crítica ao subconsumismo. Ademais, a intenção aqui é apenas introduzir o conceito de crise de superprodução, e não esgotar a crítica ao “subconsumo”. Aí estaria a origem das crises do capitalismo: ao não obterem lucro, ou lucro suficiente, os capitalistas se desinteressariam da produção, cessariam-na.
Jorge Miglioli fala explicitamente em dificuldades de realização da mais-valia; para ele, as demais partes do valor realizar-se-iam “naturalmente”.22MIGLIOLI, J. Acumulação de capital e demanda efetiva. São Paulo: T. A. Queiroz, 1982, pp. 112 e seguintes. Paul Sweezy33SWEEZY, P. M. Teoria do desenvolvimento capitalista. Rio de Janeiro: Zahar, 198, capítulos VIII-X. não chega a tal ponto, mas, mesmo que fale em dois tipos de crise (ligadas à tendência decrescente da taxa de lucro e de realização), vê apenas um tipo – a de realização – ligada à impossibilidade de se obter lucro.
As crises ligadas à tendência à queda da taxa de lucro, para Sweezy, não são realmente ligadas a esta tendência – enquanto esta deriva do aumento da chamada composição orgânica do capital (a porção do valor das mercadorias correspondente ao capital constante), este tipo de crise seria causado pela queda da taxa de mais-valia (a proporção entre mais-valia e capital variável). No período imediatamente anterior à crise, havendo um aumento excessivo da procura pelo trabalho, há também um aumento no preço da força de trabalho e uma conseqüente queda da mais-valia. Assim, o capitalista se desinteressaria da produção.
No entanto, isto provoca um impedimento para a realização, o que Sweezy classifica como “crise de realização”44Sweezy, op. cit. p. 129.. Portanto, mesmo que ele distinga duas formas de crise, não vê senão uma causa única: o impedimento da realização.
A análise das crises de realização, ele divide em duas partes: numa, analisa a possibilidade de elas serem provocadas pela desproporção entre os diferentes ramos da produção; noutra, a de elas serem provocadas pelo “subconsumo das massas” (ou simplesmente subconsumo).
Com relação à primeira, ele a descarta com base em que ela acarretaria a evitabilidade das crises. Ou seja, o capitalismo, pelo funcionamento do sistema de oferta e procura, que tende a equacionar a produção nos diferentes ramos da produção, evitaria as crises. Neste caso, o papel dos socialistas seria simplesmente o de educar as massas e esperar pela adoção pacífica do socialismo – o sonho dos revisionistas.55Sweezy, op. cit., p. 132. É claro que ele não afirma inexistência de desproporção, mas nega que ela seja a causa das crises do capitalismo. Entretanto, isso seria simplesmente negar o caráter anárquico da produção capitalista.
Embora não tente criar uma teoria tão elaborada quanto a exposta por Jorge Miglioli (baseada numa suposta dificuldade de se realizar a mais-valia, contraposta à “naturalidade” da realização das demais partes do valor), Sweezy também expõe os motivos que levariam à crise de subconsumo. Diz ele que
Se mudarmos agora nosso ângulo de visão e encararmos a produção como um processo técnico natural de criar valores de uso, veremos que deve existir uma relação definida entre as massas dos meios de produção […] e a produção de bens de consumo.66Sweezy, op. cit., p 145. Grifo meu.
Não podemos, porém, esquecer que a produção não é um processo “natural”, e sim um processo social. Como já disse, a seção da produção social destinada à fabricação de bens de consumo final cresce menos que a destinada à produção de capital constante. Mesmo quando considera esta lei do capitalismo, o autor supõe somente a queda proporcional da procura por bens de consumo como fator explicativo da crise. Esquece-se de que tal procura está intimamente ligada ao crescimento da produção geral, pois equivale a todo o capital variável utilizado e a parte da mais-valia produzida. Esta lei, portanto, não considera que parte do produto social possa restar irrealizado.
Notas:Ótimo blog e conteúdo, com embasamento e referências. Parabéns!
Obrigado, Romário! Espero poder sempre publicar conteúdo de qualidade.
Abraços,
Leandro
Exemplo de um "marxista" que explica as crises capitalistas através da teoria do subconsumo:
"...Constitucion del mercado mundial
. Tengamos presente que el mercado es muy anterior a las relaciones capitalistas de producción. Pero cambia radicalmente su papel. Antes de la Revolución Industrial el mercado era una forma adecuada de mediación de las relaciones sociales para ese grado de desarrollo de la producción de bienes del estado de carencia.
En tanto la producción de bienes desborda las necesidades consumo local, tendencialmente, el mercado mundial, para la realización de todo ese excedente, pasa a ser fundamental. En ese sentido es entre los siglos XV y XVIII cuando se produce lo que Marx llama el proceso de acumulación capitalista originaria o primitiva, la formación de una acumulación de excedente bajo la forma de acumulación de capital, en manos de una clase de propietarios de medios de producción.
El mercado es el encuentro de la oferta y la demanda. Pero en condiciones de baja productividad, la oferta de bienes es siempre inferior a la demanda y esto permite mantener un nivel alto de precios, superior a los costos de producción de esos bienes la oferta de bienes pasa a ser más grande que la demanda, ya que se produce en condiciones en que la capacidad de compra de la gran mayoría de la humanidad no aumenta al mismo tiempo y en el mismo grado que el aumento de la oferta de bienes. Por esta razón ahora nos encontramos con situaciones en que el precio de los bienes en el mercado no logra cubrir los costos de producción. Esta es la razón e la aparición de crisis cíclicas de sobre-producción en el modo de producción capitalista..."
Sérgio Lessa, Significado de la actual crisis capitalista
Diferença entre Superprodução e Subconsumo.
Suponhamos que 3/10 da população mundial, que trabalha demais e, portanto, superproduz, ao mesmo tempo em que subconsome, sustente, com seu trabalho e abstinência, 4/10 da referida população mundial, ela inclusa, mas a sua produção seria suficiente para sustentar 7/10 da população mundial, se 3/10 da mesma pudesse, de alguma forma, tornar sua demanda efetiva. Se o poder aquisitivo desses 3/10 de produtores fosse elevado a um patamar suficiente para eles consumirem à saciedade, o consumo do produto do seu (sobre)trabalho não seria superior a 5/10. Ainda haveria um excesso de produção de 2/10, o qual não seria derivado do subconsumo, mas do sobretrabalho. Assim, as crises capitalistas são de superprodução, e não de subconsumo, e derivam do sobretrabalho. O subconsumo é só uma circunstância agravante. O problema maior é o alto nível das forças produtivas, não o baixo níveo do poder aquisitivo social.
Assim, para evitar as crises de superprodução não basta aumentar o consumo dos trabalhadores, é preciso, também e principalmente, reduzir a jornada de trabalho, ou fazer recuar o nível das forças produtivas, destruindo parte delas.
Exatamente, Rui. Se há alguma diminuição no consumo durante as crises de superprodução, é porque as relações de propriedade não permitem repartir, no conjunto da sociedade, o produto do trabalho social. Isto é, os trabalhadores produzem mais que o necessário para seu sustento, mas as relações de propriedade não permitem que usufruam do seu trabalho. Quando há uma crise, a conseqüência é a extinção das possibilidades de consumo de uma grande parcela da população, que antes usufruía de parte do seu trabalho, mas que não tem mais trabalho do qual usufruir. A “solução” encontrada pelo capital é a destruição, e não o consumo.

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